O DÉCIMO TERCEIRO LIVRO

O LIVRO DO MORTO
(escrito no lutador de sumô)

Peito

A morte não é necessariamente um livro velho e usado
Com páginas secas.
Pode haver mil páginas
De um texto forte e brilhante
Num corpo poderoso,
Mantido ereto por uma espinha forte.
O coração quase não bate, pois a quietude foi alcançada,
O torso é como uma rocha,
As pernas estão enraizadas, a tinta está segura.
Se as palavras na morte podem ser consideradas esvaecidas
E murchas – onde estará a dignidade em morrer?

Perna

“Estou velho”, disse o livro.
“Eu estou mais velho”, falou o corpo.
Arrepios gelados do pé para cima.

Braço

Diferentemente da água, o papel não se congela
Ou se condensa em vapor
Ele não ferve.

Costas

O livro para terminar todos os livros.
O livro final.
Depois dele não há mais escrita
Não mais publicação.
O editor deveria se aposentar

Barriga

Os olhos enfraquecem, a luz se ofusca.
Os olhos estão semiserrados. Eles piscam.
A palavra é vítima da falência do foco.
A tinta esmaece, porém a impressão se intensifica.
No fim as páginas apenas sussurram em deferência.
O desejo diminui.
Apesar dos sonhos de amor ainda perdurarem
A esperança de consumação diminui,
Qual será o final de todas essas esperanças e desejos?
Aqui vem o final.

Nádegas

Esta é a escrita de Nagiko Kiyohara no Motosuke Sei Shonagon,
E eu sei que você chantageou, violou e humilhou meu pai.
Eu suspeito que você também arruinou meu marido.
Você agora cometeu o maior dos crimes
Você dessacralizou o corpo do meu amante.
Você e eu sabemos que você já viveu tempo demais.

O editor lê, entre atônito e conformado, o texto do último livro. O lutador de sumô, no
qual o livro está escrito, corta o pescoço do editor com a sua anuência.
A honra do pai e do amante de Nagiko está vingada.

LIVRO ONZE E DOZE

Os dois livros seguintes, O LIVRO DO TRAÍDO e O LIVRO DOS NASCIMENTOS E
COMEÇOS
, não são lidos pelo editor e não possuem um texto. O primeiro mensageiro é
atropelado pela caminhonete de Hoki na frente da loja do editor e o segundo passa dirigindo um carro e não para.
Em 31/12/1999, ela entrega seu último texto, O LIVRO DO MORTO, pelo qual
persuade o editor a aceitar sua própria execução.

O DÉCIMO LIVRO

O décimo livro é rejeitado pelo editor como uma fraude, pois não pode observar nada
escrito em seu corpo. Expulso, o mensageiro bate de novo à porta e ao abrir-se a portinhola ele mostra sua língua, revelando a mensagem que trazia.

O LIVRO DO SILÊNCIO
(escrito na língua do mensageiro)

Língua

Sussurrar pode ser um descanso do rumoroso mundo das palavras.

O NONO LIVRO

O nono livro é escrito em lugares ocultos do corpo de um monge e é denominado O
LIVRO DOS SEGREDOS.

O LIVRO DOS SEGREDOS
(escrito num jovem monge)

Pálpebras

Olhos cegos não podem ler.

Dedos

Uma mão não pode escrever em si mesma.

Escalpo

Coce para ler, arranhe para entender.

Interno Pernas

Investigação nunca se completa.

Escroto

Palavras também se reproduzem com prazer

O OITAVO LIVRO

O próximo livro da série é O LIVRO DO SEDUTOR, escrito no corpo de um mensageiro que é fotografado pelo editor com uma câmera Polaroid.

O LIVRO DO SEDUTOR
(escrito no mensageiro que é fotografado)

Cabeça e Face

Se você não for sua vítima, este livro e corpo
Distrairá você com a sua arrogância. Ele poderá lhe fazer rir.

Pescoço

Porque você não foi sua vítima, você não pode sentir
A dor da traição.

Costas

Este livro começa bem.
Tudo é claro e positivo.
Você se sente confiante.
Você sobe para morder a isca, fresca e atraente,
Que diz que você está fresco e atraente também.
Ele seduz sendo um espelho a todas suas vaidades.
Você nunca pensou que tal fólio poderia ser tão inteligente
Para tal esperteza.

Baixo das Costas

A mudança de frase é elegante.
Não há dúvida que você se impressionou.
A correção de seu caráter é um artifício esperto.

Peito e Barriga

Este é um bem lavado corpo de um livro.
Ele se assenta direito na sua mesa
Na qual é a sua abertura insuspeita.
Ele pressiona próximo a seu peito que esconde
Um insuspeito coração.
E logo suas promessas precisam ser atendidas
Senão o suspense poderia se tornar assustador
E se estender demais – você fareja um rato,
Um elefante ou um rato, um rato como um
Elefante que está ao mesmo tempo em chamas e se afogando
Muito tarde. Muito tarde para recuar.
Seu coração está aberto. O livro pegou você.
Seu corpo está bem aberto.
Este rato feito livro invadiu sua privacidade,
Preocupado em sentir suas entranhas por cada passagem privada

Barriga

Você se dobra e se agita ao golpe
Com o maior embaraço
E tenta se recompor, pensando ainda
“Como pude ser tão facilmente golpeado?”

Nádegas e Perna

Feche o livro num ímpeto
Muito tarde.
Ele enfiou seu pé sujo deteriorado na sua boca.
Suas garras o agarraram.
Você estará grávido e se sentindo culpado
Por sua prole sem palavras.

O SÉTIMO LIVRO

O livro seguinte, O LIVRO DA JUVENTUDE, inicia-se pela saudação que o pai de
Nagiko escrevia em sua face. Entretanto, esse texto é seriamente danificado pela forte chuva que colhe o mensageiro em seu caminho até a casa do editor. Enraivecido, o editor quer expulsar o jovem, mas ele lhe diz que embora tenha se perdido o texto, ainda há o corpo para se desfrutar.

O LIVRO DA JUVENTUDE
(escrito no mensageiro enviado ao editor depois da morte de Jerome)

Face

Se Deus aprovou a criação de sua criatura,
Ele soprou o modelo de argila pintado
Na vida assinando Seu nome.

Pescoço e Ombros

Onde está um livro antes de nascer?
Um livro cresce como uma árvore?

Peito

Quem são os pais do livro?

Caixa Torácica

Um livro precisa dois pais – uma mãe e um pai?
Pode um livro nascer dentro de outro livro?
E onde está o livro dos pais dos livros?

Barriga

Quão velho um livro tem que ser antes que possa parir um outro?
Livros jovens choram e gritam se não são lidos ou alimentados?
Eles passam por palavras em incontinente abandono?
Eles forçam qualquer sentença casualmente encontrada
Nas suas bocas?

Costas

Este livro passou o primeiro ímpeto da juventude.
É um livro que está na puberdade.
Ele é hesitante, e do ponto de vista vantajoso
Do leitor maduro, ele é tanto uma triste quanto
Divertida lembrança da parte que não é
Sempre atrativa o suficiente para ser revisitada.

Nádegas

A capa está se tornando enrugada tal qual
A madeira numa árvore jovem endurece. Suas páginas
São flexíveis e sabem a um pouco de sal.

O SEXTO LIVRO

O editor fica obcecado pelos livros e passa a ignorar Jerome, o qual tenta uma reconciliação com Nagiko. Ela não o recebe, e ele monta um falso suicídio para ganhar sua
atenção – sob sugestão do invejoso Hoki – emulando Romeu e Julieta. Mas a mistura de
pílulas e tinta gera um veneno que o mata, para o desespero dela. Nagiko, então, escreve
em seu corpo morto o Sexto Livro – O LIVRO DO AMANTE, que depois se tornará o pillowbook,
que ficará guardado dentro do travesseiro de madeira do editor. Posteriormente,
excertos desse livro serão também tatuados no corpo de Nagiko. Depois desse evento
trágico ela queima todas suas posses, no segundo incêndio de sua vida, e retorna a Kyoto.

O LIVRO DO AMANTE
(escrito em Jerome, transformado no livro de cabeceira)

Pescoço

Este é um livro e um corpo
Que é tão tépido ao toque
Meu toque.

Peito

Eu pressionei este livro em meus olhos
Na minha testa, nas minhas bochechas,
Eu mantive este livro aberto sobre minha barriga.
Eu me sentei sorrindo sobre este livro
Até que minha carne se amalgamou nas suas capas.
Eu me sentei gargalhando neste livro até que umedeci
Suas capas com meu corpo.
Eu envolvi este livro em minhas pernas.
Eu me ajoelhei sobre este livro até meus joelhos sangrarem.

Barriga e Coxas

Este livro e eu nos tornamos indivisíveis
Eu coloquei meus pés nas últimas páginas deste livro,
Confiante em estar tão mais alto no mundo
Como eu nunca estive antes.
Possa eu manter este livro para sempre
Possa este livro e este corpo sobreviverem ao meu amor.
Possa este corpo e este livro me amarem tanto quanto
Eu amo sua extensão, sua gramatura, sua solidez, seu texto
Sua pele, suas letras, sua pontuação, suas quietas
E suas ruidosas páginas.
Suas delícias sôfregas.
Livro, corpo – eu amo você.

Costas

Ele respira gentilmente na sua primeira página.
Ele respira mais fundo conforme as páginas viram.
Quando o ritmo de leitura é obtido
As palavras ganham uma velocidade urrada
E as páginas correm.
Eu corri com essas páginas.
Ao seu final há um suspiro e o livro
Fecha-se em contentamento.
O leitor, de bom grado, começa de novo.

Nádegas

Corpo e livro estão abertos.
Face e página.
Corpo e página.
Sangue e tinta.
Ponta dos dedos, debrum do rebordo.
A superfície do limite de cada página é tão macia
As marcas d’água são como veias fluidas.
As páginas são tão harmoniosas na sua proporção
Que desarmonia em seu conteúdo é impossível.

Mas Hoki alerta o editor e ele exuma o corpo. Retirando sua pele o transforma num
livro de cabeceira para sua contemplação sensual. Sabendo disso, e estando grávida da filha de Jerome, Nagiko propõe trocar o livro de cabeceira pela série completa dos livros que havia agendado. Aceitando a proposta, o editor torna-se mais e mais obcecado pelos livros, ao mesmo tempo em que sofre uma campanha contra suas atitudes anti-ecológicas, liderada por Hoki. Pressionado, o editor abandona seu negócio e seu único interesse passa a ser aguardar ansiosamente os textos de Nagiko.

O QUINTO LIVRO

O próximo livro é caligrafado em vermelho e dourado na pele de um americano gordo:
O LIVRO DO EXIBICIONISTA. Como ele está muito excitado, uma das assistentes do editor é obrigada a nocauteá-lo com um golpe na cabeça para que seja copiado.

O LIVRO DO EXIBICIONISTA
(escrito em um caucasiano obeso)

Peito

Um volume espalhafatoso, grosso e rubicundo,
Páginas demais empanturradas dentro
De capas carnudas. Um volume acima do peso.
Ele está seboso com o esforço despendido.

Barriga

Cada palavra é bombeada com consoante colesterol
Ele é cheio de palavras gordas.
O creme das páginas com a gordura subcutânea
Novas letras são associadas como dentes berrantes,
Fazendo a compreensão constipada
E exorbitantemente blindada.
Este livro precisa perder peso.
Se deixá-lo cair,
Cuidado com os pés
Pois é um quebrador de dedos.
Seu próprio peso poderia esmagar sua espinha.

Costas

As páginas foram perfumadas com liberalidade,
Mas o aroma empalideceu e caducou.
As páginas cheiram a cola azeda,
Ou a mau hálito de um mentiroso
Determinado
A gastar tempo sorrindo, mascando goma pegajosa.
Todo gosto doce e nenhuma substância que perdure.
Todo brilho e gazes.

Nádegas

Este livro é vistoso como uma couve-flor dourada
Mas que cheira tão mau depois
De mergulhada na água quente,
Como chocolate quente adoçado com açúcar de beterraba
Incompatíveis misturados de forma incongruente
Para propósito algum.

Alto dos Braços

O Capítulo Um promete excesso.
Capítulo Doze prova a promessa precisa,
Verdadeiramente fatigante.

Alto das Pernas

De um leitor se requere suar seu caminho
À compreensão,
Evitando as crateras da hipérbole que lanham suas páginas.
Todo adjetivo está sublinhado
Pois incapaz de parar quieto na página,
Incapaz de ser um igual a seu vizinho.

Baixo das Pernas

Seu humor é pesado e vulgar
Cheio de expletivos comandando você
A apreciar sua sagacidade.

O QUARTO LIVRO

O livro seguinte a ser entregue é O LIVRO DO IMPOTENTE, escrito num acadêmico
cantonês idoso, que corre pelas ruas após escapar do ateliê do editor.

O LIVRO DO IMPOTENTE
(escrito em um professor oriental idoso)

Peito

Este é um livro exausto devido a muita leitura?
Ou muita pouca leitura?

Caixa Torácica e Barriga

Dos cabelos da cabeça ao fim das unhas dos pés – as páginas
Estão marcadas com as nódoas do uso.
Ou mal-uso.
As palavras seriam melhor lidas
Fora da página.
As palavras ainda significam?

Costas

Há ainda um espaço
Entre os capítulos.
Ou todos os assuntos embaçaram-se?
Neste livro o índex de citações
É mais longo que o próprio livro.
Essa vida tem muitas notas de rodapé
No todo, não passa de um pé chato
Sua alma mergulhada fundo
Em bolhas calosas e grãos.

Nádegas e Parte Posterior Da Perna

O maior ímpeto de vida deste livro
É muito freqüentemente bloqueado pela qualificação.
Ele é limitado pelos seus ‘ses’ e ‘mas’
E ‘ses somentes’
E ‘entretantos’,
Desculpas para uma vida que está prestes a fechar
Suas capas pelo último momento
E, então, amarrotar-se na poeira
De uma não-vista
E ‘para-ser-lembrada-nunca’ biblioteca.

O TERCEIRO LIVRO

O LIVRO DO IDIOTA
(escrito no sueco mais velho)

Garganta e Alto do Peito

Esta é uma caixa triste de um livro cheio de palavras
Mas com pouco significado.
Ele soa oco quando se ausculta para entendê-lo.
Pois vago, vazio, e de olhos esbugalhados numa página
Ele fala algaravia e alto nonsense no texto,
Seus pulmões são ruidosos enquanto ele está silente.
Ele é silente quando sopra e arqueja para fazer o maior barulho.

Barriga

Talvez deveria haver paciência e pathos
Reservadas para este idiota congênito,
Babando, chupando seu dedo,
Digerindo seus pensamentos.
Coçando sua cabeça e sua barriga.
Procurando por pulgas entre as páginas de suas pernas.
Mas tal simpatia e paciência são aqui desperdiçadas.

Quadril e Braços

Ou talvez deva haver cuidado
E admiração secreta pelo livro-idiota
Que tem licença para falar a verdade através do humor.
Um tolo pode, com proveito, esvaziar a presunção
Mas essa admiração é aqui desperdiçada.

Alto das Costas

Este livro não possui a virtude da ironia
Nem merece a simpatia devida aos realmente loucos.
Entre o ruído alto e o silêncio vacante não há nada de substancial.

Baixo das Costas

Como você lê um tal livro?
Talvez você não leia ou não consiga.
Talvez melhor – ele possa ser reutilizado, reescrito.

Nádegas

Talvez deveríamos virar as costas a ele.
Poderemos encontrar espaço
Entre sua maior prega de arrogância flatulenta
Para outro livro
Deveríamos retomá-lo para uma outra tentativa
Para que não seja largado e perdido
Esquecido em alguma prateleira baixa.
Mantido como papel usado na privada.