O Livro de Cabeceira

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“Trate-me como as Páginas de um Livro”

Prazer e repulsa, fetichismo, instabilidade emocional, condutas sexuais ambíguas, rejeição, ciúmes e morte. Em “O Livro de Cabeceira”, Peter Greenaway orquestra uma sinfonia visual contando a trajetória de Nagiko (Vivian Wu), uma jovem japonesa, em busca do derradeiro prazer edípico. Ou, melhor dizendo, eléktrio.

Nagiko cresce em uma tradicional família japonesa, sua mãe morreu, e seu pai (Ken Ogata), escritor, a cria com a ajuda da tia (Hideko Yoshida). A cada ano, em seu aniversário, seu pai escreve de forma ritualística uma saudação em seu rosto e nuca, esse é o momento em que são mais próximos, a única possibilidade de contato físico em meio à pompa e austeridade japonesas. Aqui começa o fetiche de Nagiko pela escrita. Com a mãe ausente, não há competição no desenvolvimento do complexo de Elektra, seu único prazer físico vem do contato com o pai através da escrita. Com o tempo, passa a aguardar ansiosamente o momento de sentir o contato do pincel com a pele, o gosto da tinta na boca. Sua tia a presenteia com um livro de uma escritora japonesa do final do século dez, chamada Sei Shonagon, o Livro de Cabeceira. Nesse livro, a autora escreve listas de coisas que lhe agradam, histórias de sua vida e principalmente de seus amantes.

Ainda muito pequena, Nagico vê seu pai com seu editor (Yoshi Oida), que cobra favores sexuais para publicar seus livros, e é o único que concorre com ela pelo afeto e atenção do pai. Aqui ela começa a alimentar um profundo ciúme e desejo de vingança em relação ao editor. Quando atinge a idade adequada, ela é entregue em casamento, relutante, a um jovem praticante de arco e flecha (Ken Mitsuishi), sem qualquer gosto pela literatura ou pela escrita. Logo ela começa a escrever o seu próprio livro de cabeceira, mas, ao contrário das de Sei Shonagon, suas listas são sempre negativas. Seu pai acaba por cometer um suicídio ritual, desonrado e falido, graças à exploração do editor. Sua vida se torna um inferno, o marido recusa-se a ler e a escrever a saudação no aniversário dela. Foge. Vai trabalhar como secretária e acaba sendo descoberta como modelo. Logo adquire fama e conseqüentemente dinheiro. Passa agora grande parte do tempo descobrindo novos amantes, escrevendo seu livro de cabeceira e buscando novos e mais hábeis calígrafos, que possam escrever em todo o seu corpo. Seu prazer tem relação direta com a escrita, não com o conteúdo desta, mas com a forma. Seja um calígrafo hábil, que apenas copie páginas do livro de cabeceira original, ou mesmo um matemático, que encha seu corpo com equações, o que lhe importa é a caligrafia. Troca sexo por longas sessões de escrita.

Até que encontra Jerome (Ewan McGregor), um escritor e tradutor inglês, fluente em cinco idiomas. Após rejeitá-lo como calígrafo medíocre, desprezando-o por usar uma máquina de escrever, ele sugere que ela escreva no corpo dele. Isso gera um choque, uma inversão de papéis na mente de Nagiko. A princípio, ela rejeita a idéia, foge de Jerome e jura não voltar a vê-lo. Porém acaba se interessando em tomar um papel mais ativo no seu fetiche, e decide publicar o seu livro de cabeceira, tornando-se escritora como o pai. Ela manda o seu primeiro manuscrito para uma editora por intermédio de um amigo, mas é rejeitada e humilhada em uma carta que zomba de sua habilidade como escritora. Decide, então, seduzir o editor que a desprezou. Vai até a editora, e qual não é a sua surpresa ao perceber que se trata do mesmo editor que durante tantos anos explorou sexualmente seu pai até levá-lo à ruína, e que quem agora lhe presta favores sexuais é Jerome. Ela pensa: “- Se não posso seduzir o editor, talvez possa seduzir seu amante…” E assim faz, volta a encontrar Jerome, agora fluente em mais duas línguas. Acabam em um relacionamento extremamente sexualizado. Com o tempo, o próprio Jerome se oferece para levar o trabalho dela até o editor. Ela escreve em todo o seu corpo seu primeiro livro e ele vai se encontrar com o editor. O que nenhum dos dois havia previsto era o cíume, Nagiko não consegue suportar a idéia de dividir novamente o homem de sua vida com o mesmo editor, vai até eles e vê os dois na cama. Tomada pelo ciúme, começa a buscar outros amantes como suporte para seus textos, e recusa-se a voltar a ver Jerome, do qual está grávida. Este, em um ato de desespero, procura um amigo de Nagiko, que sempre nutriu um amor platônico por ela, e acaba aceitando sua sugestão de simular um suicídio como forma de comovê-la. Mas os remédios são muito fortes, e após escrever um bilhete de despedida espalhado pelas paredes do apartamento dela, morre vomitando um líquido negro, semelhante à tinta. Ela o encontra morto em sua cama, limpa seu corpo e escreve nele um belo poema erótico, para logo após enterrá-lo. O editor, então, rouba o corpo, e retirando-lhe a pele, transforma-a em um livro. Tomada pela ira, Nagiko decide se vingar daquele que arruinou seu pai, seduziu seu amante e após a morte desecrou sua sepultura, assim como seu corpo. Escreve ao editor lhe ofertando mais doze livros, cada um será mandado no corpo de um jovem, para que o texto seja copiado e o corpo sirva à sua luxúria. E assim acontece, os livros tornam-se com o tempo mais sintéticos e agressivos, escritos em partes do corpo ocultas à primeira vista. O último livro (o livro da morte) é esplícito e direto, conta ao editor quem ela é, quem foi seu pai, e qual o seu destino. Este acaba por se resignar, envolve-se no livro feito da pele de Jerome e aguarda a morte, vinda das mãos de um lutador de sumô, que lhe corta a garganta com uma navalha. Nagiko recupera o que restou do corpo do seu amado, e acaba embalando seu filho.

Creio ser este o filme mais acessível de Greenaway do ponto de vista narrativo, mas, ainda assim, segue diversas características básicas do seu estilo. O filme é uma orgia de imagens belíssimas, tem uma luz extremamente expressiva, e direção de arte megalomaníaca. Greenaway traz do seu passado como artista plástico esse estudo aprofundado da luz. Por vezes chega a simular em seus filmes a luz de quadros clássicos, e tende a transformar os cenários e locações em verdadeiras instalações, sobrecarregando-os de referências visuais. Neste filme foi utilizado um programa de montagem chamado paint box, que possibilita diversas formas de fusão e sobreposição. Fazendo uso desse programa, e inspirado nos sistemas orientais de escrita através da associação de símbolos – em que a fusão de duas palavras de significados diferentes e não correlatos à primeira vista gera uma terceira palavra, que seria um amálgama das que a originaram –, ele constrói imagens que chegam a unir seis planos diferentes em um único, a tela se divide entre texto escrito, passado, presente e pensamento. É praticamente impossível acompanhar cada um dos planos sobrepostos, e o objetivo não é esse. É, antes, que se obtenha uma impressão final da união de todos esses planos. Esse é um ponto básico da filmografia de Greenaway, o excesso de informação, excesso de referências visuais. No momento da morte de Jerome, o editor abre em um computador imagens de quadros a óleo. São representações de São Jerônimo (342-420) que, quando jovem, era estudante de literatura pagã e traduziu a bíblia para o latim. Ele diz que o importante não é compreender cada um dos signos expostos no filme, mas sim obter uma impressão pessoal desses signos. O objetivo é que cada espectador tenha acesso a uma obra diferente, pessoal, individualizada e intransferível. Em suas obras, o belo e o grotesco andam sempre juntos, formam uma dualidade barroca. Esse barroquismo está claramente presente em seus filmes, onde se misturam prazer e dor, sofrimento e alívio, religiosidade e devassidão. Ele tende a explicitar todos os temas mais polêmicos de forma corriqueira, por vezes até mesmo ritualística. Trata-se de uma desdramatização dos conteúdos “chocantes” em prol do verdadeiro foco da história. Em “O Livro de Cabeceira” são abordadas questões impactantes como o desejo incestuoso, a necessidade do fetiche na busca do prazer, a bissexualidade, o rompimento com as tradições, a promiscuidade, etc. No entanto, esses temas são abordados de forma tão sutil, são fatos tão normais dentro do enredo, que chegam a ser corriqueiros. Greenaway sabe o que faz, ele brinca com o espectador o tempo todo, brinca com os valores sociais de forma tão magistral que propõe alternativas a eles sem colocá-los como errados. Em sua obra, o absurdo é banal e o socialmente reprovável é rotineiro, como na vida real.

• Título original: The Pillow Book
• Direção: Peter Greenaway
• Direção de fotografia: Sacha Vierny
• Roteiro: Peter Greenaway, Sei Shonagon (escritora do livro)
• Produção: Kees Kasander
• País: França, UK, Netherlands
• Ano de produção: 1996
• Duração: 126 min.

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4 comentários em “O Livro de Cabeceira

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